Entre o esvaziamento dos centros e a sustentabilidade, os desafios da expansão moderna

A urgência de modelos resilientes e a mobilidade humana como eixos para as cidades médias do Interior

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por Érica Gasparini

Marília, 25 de março de 2026 – O desafio de projetar as cidades contemporâneas é uma missão árdua, mas não impossível, conforme discutimos na recente conferência regional do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU-SP), realizada em Bauru. Ao integrar a comitiva de Marília, pude observar que as cidades médias do Interior paulista reproduzem o comportamento urbanístico de grandes metrópoles: uma expansão contínua em direção às áreas rurais, o que resulta na eliminação progressiva de solos permeáveis. Tal fenômeno gera um esvaziamento preocupante dos centros urbanos, onde imóveis perdem sua funcionalidade residencial e corporativa, permanecendo fechados enquanto a mancha urbana se dilata de forma insustentável.

Para superar  o atual modelo de expansão desenfreada, é imprescindível revisitarmos o legado do arquiteto chinês Kongjian Yu, cuja partida precoce em 2025 deixou lacunas, mas também soluções fundamentais para o Brasil. O conceito de ‘cidades-esponja’, defendido por ele, oferece o suporte técnico para equacionar o crescimento imobiliário com a mitigação de impactos ambientais. Aliado a isso, a dinâmica da ‘cidade de 15 minutos’ surge como o indicador definitivo de equilíbrio: habitar um espaço onde as necessidades fundamentais e a mobilidade se resolvem em um curto intervalo de tempo é o sinal de que a urbanidade e o meio ambiente voltaram a coexistir em harmonia.

Durante a conferência, a participação do arquiteto Nabil Bonduki trouxe reflexões que remeteram à minha formação na PUC Campinas, especialmente ao citar a professora Raquel Rolnik. Referência incontestável em Plano Diretor, Rolnik sempre enfatizou a função social da cidade e a necessidade de planejamento estruturado.Tais diretrizes constituem o alicerce para iniciativas como o projeto global ‘Athis em Rede’, da ONU. Este programa foca na Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social, visando garantir, até 2030, moradias dignas para as populações do Hemisfério Sul, transformando o direito à arquitetura em um instrumento de justiça social.

A atuação do arquiteto e urbanista deve, portanto, ser o eixo central dessa transformação. Precisamos assumir o protagonismo na busca por um ambiente que ofereça segurança, precisão técnica e conforto em suas estruturas, sem negligenciar a preservação dos recursos naturais. 

A modernidade que buscamos não pode ser dissociada da capacidade de regeneração do ecossistema urbano. É por meio de projetos técnicos assertivos e políticas públicas eficientes que conseguiremos reverter o abandono dos centros e promover uma ocupação mais inteligente e humana do território.

Sigo otimista quanto à nossa caminhada profissional, acreditando que a técnica e a sensibilidade social são as ferramentas para construir esse equilíbrio. E muito deste otimismo me fez cursar Arquitetura e Urbanismo, me fez ir até a conferência e me faz seguir confiando no exercício profissional dos arquitetos e urbanistas. O nosso papel é mediar o desejo de construir com a necessidade de preservar, garantindo que as cidades do futuro sejam resilientes e acolhedoras. 

Como bem ensinou Kongjian Yu: ‘A arquitetura não deve ser uma luta contra a natureza, mas uma forma de se integrar a ela, permitindo que a água e a vida sigam seu curso natural”.

Érica Gasparini é arquiteta e urbanista, possui projetos arquitetônicos em importantes países, como Brasil, Estados Unidos e Inglaterra

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