A arte que persiste há 46 anos em Marília

Aos 12 anos ele começou a aprender a fazer sapatos numa fábrica de um empresário comunista. Aos 81, José Torres Ferris continua no ofício de sapateiro

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Marília, 5 de julho de 2025 – Pouca gente sabe, mas um dos maiores artistas que Marília gerou para o mundo começou sua vida profissional como sapateiro. Sebastião da Silva, o Caim (1944-2024), antes de ganhar os palcos e se tornar um dos maiores ícones da música caipira – inspirando Leonardo, Zezé Di Camargo e Daniel –, aprendeu o ofício de sapateiro. Aliás, graças ao domínio do corte e ajuste de couros aos formatos de solas, conseguiu um bom emprego em São Paulo, com o qual conseguia sustentar seus pais e irmãos e, nas horas vagas – antes de começar no expediente da fábrica ou depois –, se apresentava em rádios da capital ou em shows noturnos.

Colega de profissão de Caim, José Torres Ferris tinha 12 anos quando entrou no prédio da rua São Luiz, esquina com a rua Prudente de Moraes, onde funcionava uma fábrica de sapatos. Hoje a fábrica não existe e ali, neste prédio, funciona a Riachuelo. “Aprendi a fazer sapatos. Depois, como o dono da indústria era comunista, ele acabou preso e a fábrica teve que fechar”, contou Ferris enquanto engraxava as botas de um cliente. Antes de começar a dar lustro ao par de botinas de película, ouviu do cliente que o sapato tinha valor sentimental. “Ganhei do meu pai, que não quis mais usar depois de décadas”, revelou. Ferris, então, disse: “Essa botina é boa, de película, vai ficar muito bonita. Pode trazer sempre aqui que engraxo. O senhor lembra que ali na Sampaio Vidal tinha um monte de engraxates? É… agora não tem mais”, rememorou.

Levantou da cadeira, instalada ao lado do pé-de-ferro – instrumento primordial para a lida com os consertos, seja de sapato de salto a botinas velhas de patriarcas. Ligou a lixadeira e atentamente começou a dar o acabamento na peça. Com os dedos sábios, mas não cansados, começou a lambuzar as películas que restaram na botina. Era em tom marrom, então, a graxa era exatamente da cor de terracota, que fez o repórter dessa matéria lembrar de argila e dos guerreiros de barro esquecidos pelo imperador chinês numa sepultura descoberta séculos depois.

Desligou a lixadeira e voltou a contar sua história. “Então, depois soltaram o meu ex-patrão comunista, mas a indústria fechou. Aí tive que mudar para Franca”. Franca, para quem não se lembra, é a cidade paulista que fica quase na divisa com Minas Gerais e é reconhecida como a terra dos calçados. Aliás, o apelido da cidade é Capital Nacional do Calçado Masculino. E para lá Ferris precisou ir, para recomeçar. Depois, seguiu para São Paulo. Em 1979, retornou para sua Marília, onde nasceu há 81 anos. Abriu a Sapataria Ferris, na rua Coronel Galdino, nº 296. O fluxo de clientes nunca parou. E assim segue até os dias de hoje. “Minha família fala para eu parar de trabalhar, mas eu gosto e não vou parar. Tenho forças, sabe. Começo às cinco da manhã e paro no fim da tarde”, reforçou. A decoração da oficina de consertos de sapatos é um momento à parte para quem está ali na espera do conserto. “Aprendi a fazer sapato feminino, aqueles Luiz XV”, relatou. Ah, um aviso: o seu Ferris aceita pagamento em dinheiro e no PIX, não aderiu aos cartões de débito ou de crédito. E o sapateiro mantém um hábito há décadas: assina jornal impresso. Gosta de ficar informado sobre sua Marília.

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